sexta-feira, 4 de setembro de 2015

Sofonias, o Orador

Sofonias, o Orador




I - Nome e Genealogia - Outros dois Sofonias, além do profeta, são mencionados no Velho Testamento: um coatita, antepassado de Hemã, o cantor (1 Crônicas 6:36); o outro, um segundo sacerdote, contemporâneo de Jeremias (2 Reis 25:18; Jeremias 21:1; 37:3). Etimologicamente o nome significa “Aquele a quem Javé tem escondido e protegido” (Comparar com o Salmo 27:5), uma significação especialmente apropriada à mensagem do profeta. Com efeito, sua personalidade é demonstrada em sua mensagem. Como nos casos de Isaías, Jeremias, Joel e Zacarias, o mesmo acontece com a genealogia de Sofonias, a qual sem dúvida traz detalhes inusitados, como sendo tataraneto de Ezequias, o qual, provavelmente era o rei de Judá, pois de outro modo não haveria motivos racionais para atrasar a sua genealogia em quatro gerações. Que Sofonias pertenceu a um ramo da família real é cronologicamente possível, visto como Manassés, filho de Ezequias, tinha 45 anos quando lhe nasceu o filho Amon (2 Reis 21:1, 19). Nesse caso, Ananias, irmão de Manassés, poderia facilmente ter tido um neto (Cusi) e por isso Sofonias ter tido tantos anos como Josias. Se, pois, Sofonias tinha sangue real, suas censuras sobre os príncipes e outros potentados de Jerusalém (Sofonias 1:8-9) se tornam mais interessantes e muito mais pertinentes. Evidentemente, ele viveu em Jerusalém, conforme indica a sua familiaridade com “a porta do peixe” e o “Morteiro” (provavelmente algum bairro especial de negócios da cidade) (Sofonias 1:11), especialmente a sua referência  “deste lugar” (Sofonias 1:4).
II - Período e Data - O título do livro declara que Sofonias profetizou “nos dias de Josias” (639-608 a.C) e com essa declaração o conteúdo do livro está de pleno acordo. Nada existe no livro que justifique a mais débil suspeita de que ele não tenha pertencido a esse período.  Sem dúvida, mesmo condenando o povo pela sua idolatria e corrupção, violência e injustiça, a plena verdade é que ele se desprende de toda a história, pois o caráter universal de sua mensagem exclui o trato completo de eventos históricos. Com efeito não se pode dizer que Sofonias tivesse falado claramente de pânico ou perigo particular, tal como a invasão escita, que veio sobre a Palestina, mais ou menos nesse tempo, 627 a. C., (Heródoto 1:104 e seguintes), ainda que isto seja possível. Sofonias, de preferência, se mostra cuidadosamente indefinido acerca de todos os eventos do seu tempo.
         Sem dúvida, se ele profetizou antes do descobrimento do Livro da Lei, no oitavo ano do reinado de Josias, em 621 a.C. (2 Reis 22:8), como crê a maioria dos eruditos modernos, ou depois desse importante evento, como crêem outros, vai depender em grande parte da interpretação que teremos das seguintes referências: 1) – “ o restante de Baal” (Sofonias 1:4), que parecia colocá-lo pelo menos depois do décimo segundo ano de Josias, quando este começou as reformas (2 Crônicas 34:3). 2) - “e os filhos do rei” (Sofonias 1:8). Será que o rei Josias já tinha filhos com apenas 20 anos de idade? (2 Reis 22:1-3). 3) - A ameaça do profeta de que Nínive vai ser destruída e desolada (Sofonias 2:13-15) nada tem a ver com o rancor de Naum. Desse modo, Sofonias pode ter vivido um pouco antes  de Naum. 4) – “fizeram violência à lei”. Esta passagem poderia indicar um tempo depois da reforma de Josias, em 621 a.C. Contudo, Jeremias faz alusão a “os sacerdotes” e à lei, no exato princípio do seu ministério (Jeremias 2:8), sendo que este e Sofonias eram contemporâneos próximos, tendo começado a pregar em 626 a.C.  Por isso podemos dizer que Sofonias profetizou entre os anos 12 e 18 do reinado de Josias, ou em cerca de 625 a.C.
III - Conteúdo - Três fases distintas podem ser descobertas no livro de Sofonias, quando tratamos do seu único e grandioso tema do Dia (vindouro) de Javé.
1. - Ameaças e Juízos – (Capítulo 1) - Anunciando com juízos e ameaças o dia da ira do Senhor, a qual englobará toda a terra, mas que foi dirigida particularmente aos idólatras e apóstatas de Judá e Jerusalém.
2. - Admoestações dirigidas às nações - (Capítulo 2) Filístia, Moabe, Amon, Etiópia e Assíria. Estas são seguidas de uma fervorosa admoestação contra Jerusalém, para que se arrependa, a fim de escapar do castigo destinado aos pecadores voluntários (Sofonias 3:1-7).
3. - Ânimo e promessas - (Capítulo 3:8-20) - Haverá salvação para os arrependidos, especialmente para o “remanescente de Israel”, o qual gozará de fama universal como o redimido de Javé, morando para sempre em sua presença.
IV - Tema - O grande e único tema de Sofonias é o vindouro “Dia do Senhor”, quando Ele se revelará em sua plenitude ao mundo inteiro, julgando os malfeitores e cumprindo o seu propósito de redenção entre nós. Contudo, o juízo não é considerado por Sofonias como um fim em si mesmo. Antes, ele é um meio de Javé se dar a conhecer ao mundo, iniciando o seu reino de salvação. Portanto, o  seu tema é, de um certo modo, escatológico, tratando da “consumação do século”.
         Para Sofonias o “Dia do Senhor”  não significa tanto um dia de juízo diante do Juiz, como um dia de batalha, um conflito apocalíptico que está para vir. O povo estava “assentado sobre as sua fezes”, isso é, se havia corrompido e tornado egoísta, com a sua vida estagnada no indiferentismo, o qual era pouco melhor que o ateísmo, e por isso a matança e a destruição o esperavam. Os hóspedes de Javé já estão convidados para o grande sacrifício e tudo vai ser queimado. “Um dia de indignação” (Sofonias 1:15). Este texto serviu de base aos mais notáveis hinos medievais “Dies Irae, Dies Illa” - “Dia de Luto”. Porque a nota de condenação de Sofonias parece haver ecoado pelos séculos, até cair nos ouvidos do franciscano Tomás de Celano, um monge italiano do século 13. Como resultado transformou-se num poema de 19 versos, entregue ao mundo como reconhecida obra prima, tão terrível em sua grandeza e tão intensa em seu fervor e tristeza que nela ouvimos algo como “o estrondo final do universo”.  A mensagem de Sofonias pode ter ajudado na reforma de Josias. Pois ele  dirigiu os seus golpes contra o sincretismo religioso - uma mistura do culto a Baal, Milcon e as estrelas - exortando o seu povo a buscar a mansidão e justiça, prometendo que, se o fizesse, tudo iria acabar bem. Não é justo dizer que sua mensagem é totalmente negativa e destrutiva. Essa declaração é verdadeira somente quando as porções promissoras são separadas de uma crítica lógica e científica.
V - Valor - O livro de Sofonias, mesmo pequeno, é valioso. Muitos deixam de apreciá-lo e a maioria de nós passa desapercebida, como se ele fosse despojado de texto para o púlpito. Ao contrário, ele tem valor permanente e como livro não deve ser subestimado pelo seu tamanho. Aqui temos alguns dos seus ensinos permanentes:
1. - A necessidade constante de admoestação – (Sofonias 1:14-16) - Sofonias deu o exemplo a todos os ministros modernos de como devem relembrar aos homens as terríveis realidades do mundo moral.
2. - O tom moral profundamente sério que permeia todo o livro - Sofonias  é profundamente sensível aos pecados do seu povo e à necessidade moral que impele Javé a visitá-lo com disciplina e juízo. Seu evangelho é conciso e austero. Uma mudança moral é necessária (Sofonias 3:7-13).
3. - A natureza espiritual do reino de Deus  - (Sofonias 3:14-20) - Esta seção é um dos apocalipses do Velho Testamento. É o melhor do livro e contém duas promessas maravilhosas: a) - “Javé está no meio de ti” (Sofonias 3:15-17). b) - “Farei de vós um nome e um louvor entre todos os povos da terra”   (verso 20), porque depois da tribulação vem a glorificação. O cativeiro de Judá será removido e tudo acabará bem. Judá será salvo ainda que “passando de raspão pelo fogo”.
         O remanescente de Judá gozará de uma modesta idade áurea. Mesmo não havendo aqui uma explícita referência a um Messias pessoal, sem dúvida não faremos mal em crer que, o que quer que tenha sido visto na visão apocalíptica do profeta, suas palavras apontam para o grande livramento da obra de Cristo. Mais notável é o fato de que o seu conceito de reino celestial inclui toda a humanidade.
VI - Estilo - O estilo de Sofonias é direto e forte,  portanto de acordo com o caráter imperativo de sua mensagem. O que lhe falta em graça e encanto, até certo ponto, é suprido de vigor e clareza de linguagem. Nenhum outro profeta tornou mais real a descrição do “Dia do Senhor’. O estrondo da ira divina, cantado hoje em todo o mundo musical como réquiem, deixa ressoarem os ecos poderosos e fúnebres de uma visão drástica, tão musicais e tão famosos que nenhum tradutor pode vertê-lo para outro idioma sem uma grande perda. Budda foi o primeiro a reconhecer que a maior parte do livro foi escrita nesse ritmo ou metro elegíaco. Para um anúncio de castigo e aflição, este gênero de poesia que leva o acento na 3ª. e na 5ª. sílabas de cada linha, é o metro adequado. Com exceção de Sofonias 3:8-11, todo o livro está praticamente metrificado dessa forma. Em Sofonias 3:11-13, temos uma passagem de estranha beleza.
         Sofonias é talvez menos original que a maioria dos outros profetas. Ele mostra afinidade com os seus predecessores, especialmente com o estilo de Isaías. Sem dúvida a corrente do seu discurso flui mansa e gravemente. Suas repetições de palavras e frases servem para acrescentar ênfase. Ocasionalmente, ele se vale do jogo de palavras, por exemplo, em Sofonias 2:4: “Porque Gaza será desamparada, e Ascalom assolada; Asdode ao meio dia será expelida, e Ecrom será desarraigada”. Alguns dos seus epigramas são muito notáveis, como por exemplo: “E há de ser que, naquele tempo, esquadrinharei a Jerusalém com lanternas, e castigarei os homens que se espessam como a borra do vinho, que dizem no seu coração: O SENHOR não faz o bem nem faz o mal” (Sofonias 1:12). “...e santificou os seus convidados” (Sofonias 1:7). “ó nação não desejável” (Sofonias 2:1). “... porque toda esta terra será consumida pelo fogo do meu zelo” (Sofonias 3:7). Dizem que se alguém deseja ver as declarações dos profetas sucintamente expressadas, deve ler o curto livro de Sofonias. Diz Ewald: “O que é novo em Sofonias é especialmente o amplo conhecimento que ele tem de todas as terras e nações e a percepção dos assuntos espirituais de toda a terra”.
The Tweve Minor Prophets”, George L. Robinson
Publicado por George H. Doran Co, New York, 1926
Traduzido por Mary Schultze, março/abril 2004
Citações bíblicas da Bíblia Revisada FIEL de Almeida

Habacuque, o Filósofo


I - Nome e personalidade - Nada se sabe, realmente, a respeito de Habacuque, fora do livro que contém o seu nome. Às vezes até se duvida que o seu nome  seja originalmente um nome pessoal ou meramente uma designação simbólica (Comparar com o nome Malaquias). De todos os modos é uma forma singular e poderia haver-se derivado, se é que não foi tomado de empréstimo, da palavra assíria “hambkuku” (uma espécie de hortaliça) ou  da raiz “habkak”, cujo significado é “abrasar”. Também pode ser “alguém que luta com Deus”, ou “amado de Deus” ou ainda “consolador do seu povo”. Lutero aceitou esta etimologia, observando que “Habacuque tem um nome de  acordo como seu ofício. Porque significa um animador, ou um que toma o outro em seus braços e no coração, como se consola uma criança que chora, dizendo-lhe que se cale.” Como Ageu e Zacarias, Habacuque é chamado explicitamente “o profeta” (Hc. 1:1), o que pode dá a entender que foi um homem de Judá e um residente bem conhecido em Jerusalém e, portanto, intimamente familiarizado com a situação política local (Hc. 1:3-4). De todas as maneiras, há suficiente motivo para se crer que Habacuque tenha sido uma das grandes personalidades de sua época.
Não como um dos falsos profetas a quem Jeremias desejou a morte. Ele também poderia ter sido um membro importante da escola de Isaías, isto é, um discípulo deste (Isaías 8:16). É verdade que ele era um livre pensador entre os profetas e em certo sentido o pai da dúvida religiosa. Contudo, ele era também um homem de grande fé, precisamente o gênero de homem que Deus deseja comissionar para a inauguração de uma nova época na história da igreja. Ele deve ser identificado com a “sentinela” mencionada em Isaías 21:6, enviada em busca de sinais da queda de Babilônia. Ou como sugerem os rabinos judeus, com o filho da mulher sunamita que Eliseu ressuscitou (2 Reis 4:36-37), mas não podemos garantir. Mesmo assim, sabemos que o profeta era um filósofo sério e puro, dono de uma originalidade  e força moral incomuns. Que ele era sensível e especulativo.
O “suplicante” entre os profetas e um pregador do otimismo teocrático.
A tradição acrescenta muitos detalhes de nenhum valor a respeito dele, como por exemplo, a história de “Bel e o Dragão” (vs. 33-39) diz que ele levou uma sopa a Daniel, que havia sido atirado pela segunda vez à cova dos leões por Ciro, na Babilônia. Segundo o prefácio à mesma história no Códice Chisianus da Septuaginta, ele era um homem da tribo de Levi, enquanto na obra “Vidas dos Profetas”  ele pertencia à tribo de Simeão... O profeta teria fugido para o oeste de El-Arish, na costa Egípcia, tendo regressado à sua terra, onde faleceu antes do regresso dos judeus da Babilônia, em 536 a.C. Eusébio em seu onomástico acrescenta que no seu tempo o sepulcro de Habacuque era mostrado, tanto em Gabaah como em Keilah.
II - Propósito - O único propósito do profeta foi o de predizer a vindoura destruição dos caldeus e assim animar Judá no tempo da crise. Muito apropriadamente o livro começa com o título que descreve o seu caráter: “O peso que viu o profeta Habacuque” (Hc. 1:1). “A palavra ´peso´ [ou “burden” = carga na BKJ, ou “sentença” na ARA] prepara o leitor para uma “declaração solene, ou um juízo ameaçador ou uma sentença judicial contra algum inimigo estrangeiro”. Outros profetas em geral começavam expondo os pecados do seu próprio povo, tendo ficado a Habacuque o encargo de enfatizar a violência e os excessos cometidos pelos opressores de Judá - os caldeus.
III - Data - A data das profecias de Habacuque depende da identificação dos caldeus como os tiranos do seu tempo, mais exatamente ao tempo específico em que teria começado a sua carreira de conquistas (Hc. 1:6). Porque não há indicação no livro de que até então ele se houvesse intrometido nos assuntos de Judá. Muitas autoridades assinalam o ano de 604-603 a.C. Nínive havia caído em 606 ou possivelmente antes, por volta de 612 a.C. Nabucodonosor acabara de iniciar a sua célebre carreira de conquistas na Ásia Ocidental. Em Carquemis ele derrotou o Faraó Neco do Egito (605 a.C)  e essa vitória mudou a história daquela época. O Egito, que tanto havia molestado Judá, entre 608 e 605 a.C, foi, então, humilhado pelos conquistadores caldeus. Em Judá era grande a ansiedade. A reforma de Josias, em 621, havia sido provada como superficial. A destruição e violência eram perpetradas pelos caldeus nas nações em geral (Hc. 1:6,10,13; 2:5-6).  Judá não havia ainda sido invadida, mas o Líbano começara a sofrer (Hc. 2:17) e o inimigo estava cada vez mais próximo, trazendo uma tremenda insegurança à vida de Judá. Todas essas considerações reunidas  assinalam uma data pouco depois das batalha de Carquemis, ou cerca de 603 a.C. 
A tradição judaica atribui o livro ao tempo de Manassés. Outros lhe dão outras datas, sendo a última o ano 170 a.C. , no reinado de Antíoco IV. Contudo, a data que prevalece é 603 a.C, quando, ao que parece, ainda existia o primeiro templo.
IV - Análise e conteúdo - O livro começa com um diálogo entre Javé e o profeta e em seguida narra certos castigos que sobrevirão ao violento opressor da humanidade, concluindo com um lindo poema de confiança em que Deus há de livrar o seu povo.  Podemos facilmente dividi-lo em 6 partes distintas e características:
1. - A queixa do profeta - (Hc. 1:2-4) - a qual começa com um desesperado lamento: “Até quando, SENHOR, clamarei eu, e tu não me escutarás? Gritar-te-ei: Violência! e não salvarás? Por que razão me mostras a iniqüidade, e me fazes ver a opressão? Pois que a destruição e a violência estão diante de mim, havendo também quem suscite a contenda e o litígio. Por esta causa a lei se afrouxa, e a justiça nunca se manifesta; porque o ímpio cerca o justo, e a justiça se manifesta distorcida”. Aqui se apresenta um problema de agravo à Torá, pois ninguém deve queixar-secontra Deus, mas a Deus. Não se indaga o que significa tudo isso, pois sabe-se que é “para juízo” e para “correção”. (V. 12). Tão pouco se  indaga diretamente porque se permite que a maldade triunfe sobre o bem, mas se pergunta o resultado: “Até quando” a maldade assediará o justo e frustrará o seu propósito e por que, então, Deus não intervém?
         Contudo, naturalmente uma questão se apresenta: “Quais eram os males lamentados pelo profeta nestes versículos?” Seriam internos, isto, é, cometidos pelos hebreus contra os hebreus em Judá? Ou seriam os efeitos funestos de um inimigo que se aproximava ameaçando, de fora, como os caldeus? Existe uma diferença de opiniões, mas em vista do verso 13 é mais natural pensar na última. A iminente invasão ameaçadora dos caldeus produzia atrito, descontentamento e discórdia, depreciando as leis e provocando a anarquia, daí a razão do clamor de  Habacuque.
2. - A resposta de Javé - (Hc. 1:5-11). O verso 5 diz: “Vede entre os gentios e olhai, e maravilhai-vos, e admirai-vos; porque realizarei em vossos dias uma obra que vós não crereis, quando for contada”, usando um método drástico de levantamento dos caldeus para açoitar o seu povo. Estes versos contêm uma descrição muito gráfica do caráter e das conquistas dos caldeus, aquela “nação amarga e impetuosa, que marcha sobre a largura da terra, para apoderar-se de moradas que não são suas”. Nação que despojava os habitantes da terra, reunindo cativos como a areia do mar, zombando dos reis, capturando fortalezas, tomando cidades, a qual ousa divinizar a sua própria potência.
3. - O problema moral do profeta - (Hc. 1:12 a 2:1) - A resposta de Javé, mesmo reforçando a fé do profeta, cria um novo e mais sério problema moral, deixando- o perplexo: “Não és tu desde a eternidade, ó SENHOR meu Deus, meu Santo? Nós não morreremos. Ó SENHOR, para juízo o puseste, e tu, ó Rocha, o fundaste para castigar. Tu és tão puro de olhos, que não podes ver o mal, e a opressão não podes contemplar. Por que olhas para os que procedem aleivosamente, e te calas quando o ímpio devora aquele que é mais justo do que ele?” (vs. 12-13). Não há providência divina!  (v. 17). O problema de Habacuque penetra a significação moral da história e da experiência de Israel. É o problema da força dos maus contrastando com a humilhação dos justos. Haverá solução para esse enigma somente quanto aumentar a fé do atalaia. Porque ainda que ele veja o mundo ruindo ao seu redor, de repente é levado de volta a uma crença firme na providência divina: “Sobre a minha guarda estarei, e sobre a fortaleza me apresentarei e vigiarei, para ver o que falará a mim, e o que eu responderei quando eu for argüido” (Hc. 2:1).
4. - A resposta final de Javé - (Hc. 2:2-4). Parado sobre o atalaia, Habacuque não precisa esperar muito tempo  pela resposta de Javé. Recebe uma visão e lhe é ordenado: “...Escreve a visão e torna bem legível sobre tábuas, para que a possa ler quem passa correndo”. O cumprimento dessa mensagem está no futuro. Por isso Javé exorta: “Porque a visão é ainda para o tempo determinado, mas se apressa para o fim, e não enganará; se tardar, espera-o, porque certamente virá, não tardará”  (v. 3). A figura parece ser a de uma cidade entrincheirada contra a invasão do inimigo. O profeta sente que precisa defender um posto, guardar um baluarte. Deste ponto alto até o fim haverá a chave do enigma que o tem feito sofrer por tanto tempo e por ela Habacuque é inspirado a anunciar o grande princípio moral da verdadeira religião, isto é, o orgulho e a tirania não podem, pela sua própria natureza, perdurar. Porém os justos que continuarem fiéis hão de sobreviver: “Eis que a sua alma está orgulhosa, não é reta nele; mas o justo pela sua fé viverá” (v. 4). Em outras palavras, o futuro pertence aos justos e os que se alimentam de soberba e arrogância não têm futuro algum. Os caldeus são egoístas e por isso estão condenados. Os justo olham para Deus e por isso permanecem.
5. - Uma série de cinco castigos - (Hc. 2:5-20) - Numa série de cinco anátemas, as nações vencidas e escravizadas erguem a voz condenando os opressores caldeus (v. 5). A acusação de Habacuque faz lembrar as que foram proferidas por Naum contra Nínive. O profeta crê que aqueles que os caldeus têm fustigado por eles serão depois açoitados e que a tirania é um suicídio. Que os caldeus são criminosos e que a injustiça conduz, necessariamente, ao declínio de uma nação. Falando em nome das nações desoladas, ele amontoa sobre elas uma invectiva quadruplicada e sarcástica.
1ª. Ai daquele que ambiciona novas conquistas com o fim de ganhar despojos. Semelhante despojador será ele mesmo despojado e como saqueou, assim também será saqueado! (Hc. 2:6-8).
2ª. Ai daquele que só se agrada da ganância pessoal e procura engrandecer-se, tratando de assegurar apenas os seus próprios recursos, guardando-se contra as desgraças. Semelhante política é um suicídio e o que a favorece, no devido tempo, perde a sua própria alma!  (vs. 9-11).
3ª. Ai daquele  que oprime os outros sem escrúpulos, porque as cidades edificadas sobre a crueldade e a violência serão destruídas (vs. 12-14).
4ª. Ai daquele que barbaramente reduz um povo à completa impotência com o fim de gozar de sua condição de subjugador, porque com a medida com que mediu será também medido” (vs. 15-17).
5ª. Ai daquele que invoca loucamente os ídolos em busca de instruções. Porque a idolatria é tola e irracional e uma imagem esculpida não é senão um mestre da mentira (vs. 18-20) Javé reina!!!
6. - Uma Ode ou rapsódia - (cap. 3) - O terceiro capítulo de Habacuque é um dos mais lindos cantos de louvor do Velho Testamento. É ousado no conceito, sublime no pensamento, majestoso na dicção e puro na retórica. Ewald chama esse capítulo de “A Ode Pindárica de Habacuque”. Ele compreende naturalmente três divisões:
1ª. Uma oração na qual roga que Javé  avive a sua obra de livramento nesse tempo (Hc. 3:2).
2ª. Uma teofania – com Javé vindo a  Temã e Parã, como na antiguidade (vs. 3-15).
3ª. O efeito da maravilhosa aparição de Javé produzido sobre o profeta, a princípio só temor e suspensão, mas em seguida por calma e confiança repletas de gozo. (vs. 26-19).
         Esse poema, como os capítulos 1 e 2, foi escrito numa época de crise nacional, quando a terra estava sendo ameaçada de invasão (Hc. 3:16). Seu sentimento concorda admiravelmente com o das profecias não disputadas dos capítulos 1 e 2 de Habacuque. Nessas profecias ele começa o mistério da interrogação (Hc. 1:2). No canto ele conclui com certeza e afirmação (Hc. 3:19). O mesmo tom e caráter sublimes se complementam. O canto suplanta a mensagem do profeta, sendo o propósito de ambos animar e conservar vivo dentro da nação o espírito de esperança e de confiança em Deus. Por conseguinte, ele representa Javé como vindo envolto em tronos e nuvens, a partir de sua morada nas montanhas do deserto, para livrar o seu povo dos inimigos deste. A teofania é somente para a salvação e livramento de Israel (v. 13) [profetizando o que acontecerá, quando o verdadeiro Messias de Israel – Jesus Cristo - vier em toda a sua glória, sobre as nuvens, a fim de libertar o seu povo dos inimigos, na batalha do Armagedom.] O argumento de Habacuque é que Aquele que tão maravilhosamente livra o seu povo na juventude, jamais há de abandoná-lo em anos futuros. Tendo Javé operado a redenção de Javé nos dias de Moisés e dos Juízes, há de voltar a fazer o mesmo, naquela crise atual. Por isso o profeta aguarda uma nova parusia de Javé, uma revelação de sua Pessoa, e uma repentina exposição de sua glória para a salvação do seu povo. E nessa expectação de fé, o profeta conclui com uma absoluta e ilimitada confiança em Deus, afirmando enfaticamente que ainda todos os sinais visíveis do seu amor venham faltar e ele fique reduzido à pobreza e à penúria, mesmo assim ele se alegrará no Deus de sua salvação: “Porque ainda que a figueira não floresça, nem haja fruto na vide; ainda que decepcione o produto da oliveira, e os campos não produzam mantimento; ainda que as ovelhas da malhada sejam arrebatadas, e nos currais não haja gado; Todavia eu me alegrarei no SENHOR; exultarei no Deus da minha salvação (vs. 17-18).
O Salmo 77:15-20 poderia ter exercido influência na composição deste belo poema. É verdade que o salmista mostra sinais de haver pertencido a um tempo e a um hinário da comunidade judaica... Contudo, por não ter paralelo com outros livros proféticos, não é preciso concluir-se que Habacuque tenha composto este poema inspirado no Salmo 77, visto como os capítulos 1 e 2 do seu livro provam suficientemente que ele foi,  de fato,  um poeta!
V - Ensino permanente - Habacuque se contenta em anunciar apenas uma grande verdade, porém de maneira tão magistral que esta não somente chega a ser o tema do Judaísmo como também do Cristianismo evangélico - a doutrina da justificação pela fé. (Hc. 2:4). Não foram Paulo, Agostinho e Lutero que ensinaram pela primeira vez este grande princípio. Foi Habacuque quem o fez, às vésperas da invasão de Judá pelos caldeus. Este tema pode ser desenvolvido em vários componentes:
1º. O fato da disciplina divina - O enigma constante do Velho Testamento “não é a sobrevivência do mais idôneo, mas o sofrimento do melhor”. Em Jó foi o sofrimento de um indivíduo, em Habacuque, o de uma nação.
2º. O fato de que o mal se destrói a si mesmo - Com uma visível arrogância, os caldeus estavam cegos quanto ao fato de que eles eram apenas a vara da disciplina de Javé contra o seu povo. Jeremias e Habacuque foram contemporâneos. Jeremias ensinou que a maldade é condenada no próprio povo de Deus. Habacuque ensinou que a maldade dos caldeus também é condenada. A tirania sempre carrega em seu bojo as sementes da própria destruição [Um exemplo moderno é o de Sadam Hussein].
3º. O fato de que a fé é a condição da vida - “O justo viverá pela fé”. Este é o grande ensino de Habacuque. Nele o profeta fez uma contribuição muito original e significativa à teologia global. A fé, no conceito do profeta, significava mais que uma simples confiança. A forma é um abstrato feminino “emunah”  dando a idéia, conforme permite o  uso da palavra em outras partes do Velho Testamento: (Êxodo 17:12; Isaías 36:6; 2 Reis 7; 1 Crônicas 9:22,26; Provérbios 12:17), do caráter que a fé produz, isto é, fidelidade, firmeza, sofrimento, persistência, paciência e também lealdade.  E “a vida”, segundo Habacuque, não significa uma mera prosperidade nacional, mas a segurança moral, mesmo em meio à calamidade. Em outras palavras, uma fé viva determina o destino: permanecendo em vida e sobrevivendo ao juízo. Habacuque, como um filósofo, percorreu todo o caminho: desde a dúvida até a fé sublime. Esta passagem de Hc. 2:4 é citada três vezes no Novo Testamento (Romanos 1:17; Gálatas 3:11 e Hebreus 10:37).
         Habacuque ensina ainda outras lições importantes em seu livro:
1. - A vaidade da violência - “Não és tu desde a eternidade, ó SENHOR meu Deus, meu Santo? Nós não morreremos. Ó SENHOR, para juízo o puseste, e tu, ó Rocha, o fundaste para castigar” (Hc. 1:12).
2.  -  O valor em tempo de crise - Habacuque exorta implicitamente os seus leitores a terem valor e serem felizes. Ele exorta a alma despojada de toda posse exterior a ser valorosa e feliz em Deus, como o único  objeto de confiança. Aparentemente isso era inerente e, portanto natural, porque ele possuía uma confiança sempre repleta do gozo de que o Senhor iria trazer salvação ao seu povo.
The Tweve Minor Prophets”, George L. Robinson
Publicado por George H. Doran Co, New York, 1926
Traduzido por Mary Schultze, março/abril 2004
Citações bíblicas da Bíblia Revisada FIEL de Almeida

Naum, o Poeta

I - Nome - Praticamente nada se sabe do profeta, com exceção do seu nome e, mesmo assim, esse nome não é mencionado  em nenhuma outra parte da Bíblia, exceto na genealogia de José, o suposto pai de Jesus (Lucas 3:26). Como muitos outros profetas, Naum é apenas uma voz. Sem dúvida o nome que ele levou tem a sugestiva significação de um “Consolador”.
II - Lugar de Nascimento - Ele é apresentado como “Naum, o elcosita”, frase que, provavelmente, tem como base designar o seu local de nascimento, embora, como sugere o Targum, seja o nome dos seus antepassados.. Compare-se com “Elias, o tesbita” (1 Reis 17:1). A Septuaginta o chama de “Naum, o elquesita”. Quatro conjecturas têm sido feitas a respeito do seu local de nascimento: 1. – Al-Kush, uma vila que fica 38 Km ao norte de Mosul, em frente de Nínive, a qual foi por muito tempo um sítio dos patriarcas nestorianos, onde o seu sepulcro é reverentemente assinalado, tanto por cristãos como por maometanos, e, especialmente,  pelos judeus que ali residem. Se o profeta viveu e profetizou ali, suas descrições gráficas de Nínive seriam mais bem explicadas e seria ele, naturalmente, um membro das Dez Tribos que foram levadas por Tiglate-Pilesser, em 734 a.C. Ewald aceitou essa identificação. Contudo, a tradição que associa Naum com Al-Kush não pode se atrasar além do século 6 a.C. Ain-Japhata, um povoado situado ao sul da Babilônia, desde 1165 d.C., assinalou a Benjamim de Tudela outro sepulcro tradicional de Naum. O Kause, uma pequena vila de Galiléia setentrional (Jerônimo). Ainda Hitzig identificou Cafarnaum com o local de nascimento do profeta, por causa do nome árabe Kefr-Nanhum (A Cidade Naum). Compare-se, contudo, João 7:52. Elkese, “mais para lá de Betogabra”, isto é, Beit Jibrim, fica  32 Km ao sul de Jerusalém, na tribo de Simeão. Também na visão siríaca da obra “A Vida dos Profetas”, datada de 367 d.C., atribuída erroneamente a Epifânio, Bispo de Salamina. Também Cirilo de Alexandria e a Septuaginta. Nove quilômetros a leste de Beit Jibrim, no Waldyes Sulk, existe na atualidade um poço chamado pelos nativos de Bir-el-Kaus. Nestlé favorece essa identificação. De fato esta parece ser a mais provável de todas as identificações sugeridas. Porque às vezes Naum parece falar a partir do ponto de vista de Judá. E como um profeta entusiasta, ele dá a entender as circunstâncias locais (Naum 1:4, 15; 2:1 e 3:17).
III - Seu tempo - A data de Naum é indicada com bastante clareza em Naum 3:8-10, versos que tratam da queda de No-amón, isto é, Tebas, no Alto Egito, conforme já verificado, e de Nínive, como coisa preste a se realizar. A primeira foi capturada por Assurbanipal, em 663 a.C., e a última por Nabopalassar, em 606 a.C.,  ou então, conforme foi recentemente descoberto, em 612 a.C. O período do profeta, portanto, estaria dentro desses limites.
         Assurbanipal era extremamente cruel. Ele até se jactava de sua violência e de suas atrocidades, como arrancar os lábios e os membros dos reis, tendo forçado três governantes de Elam, capturados, a puxar seus carros pelas ruas, compelido um príncipe a levar pendurada ao pescoço a cabeça decapitada do seu rei, e de como ele e sua rainha comiam no jardim com a cabeça de um monarca caldeu, a quem obrigara a suicidar-se, pendurada numa árvore sobre eles. Nenhum outro rei da Assíria se jactava de barbaridades tão desumanas e atrozes. Conta-se que ao rumar para o Egito em uma de suas expedições, vinte e dois reis lhe tributaram homenagem. Ali chegando, tanto em Memfis, capital do Baixo Egito, como em Tebas, capital do Alto Egito, eles foram roubados e cruelmente castigados. O pobre povo de Judá e Jerusalém foi expectador de todas essas barbaridades. Em verdade eles já haviam presenciado, por várias gerações, uma sucessão interminável de invasões assírias à Palestina. Salmanasser II, em 842 a.C.; Tiglate-Pilesser, em 734 a.C.; Salamasser IV e Sargão II, em 724-722 a. C.; Senaqueribe, em 701. Esaardon, em 672, e agora Assurbanipal. E parecia que o pior ainda estava por vir. Parecia que Naum e seus compatriotas em Jerusalém estavam atados e impotentes nas mãos de um inimigo cruel e tirano (Naum 1:15-2:2). Nínive ainda se achava no ápice da glória (Naum 3:16,17). Pelo tom da profecia, podemos deduzir com razão que a destruição de Tebas era um evento relativamente recente e que a queda de Nínive ainda não havia acontecido, embora profeticamente próxima. Por isso a data exata do ministério de Naum provavelmente não foi antes de 650 a.C.
         Se assim foi, na certa o profeta exibiu um ousado vôo de fé, declarando a segura destruição de Nínive, quando a nação ainda não mostrava sinal algum de declínio. Outras datas propostas  para as atividades de Naum, tais como a do reinado de Ezequias, ou Joaquim, ou Zedequias, não estão seguramente atestadas pelos eventos históricos. O esforço de Happel para atribuir Naum a uma Escritura pseudo-epigráfica  da era dos Macabeus é suficientemente refutada pela menção prévia de “Os Doze Profetas” de Jesus ben Sirac, em Eclesiástico 41:10, o qual floresceu em 180 a.C. Porém, seja qual for a data correta do profeta, os anais assírios não deixam dúvida de que por toda a história da nação os assírios sempre foram cruéis, violentos e bárbaros, sempre jactando-se de suas vitórias, regozijando-se de que “já não havia espaço para tantos cadáveres”, de que “fizeram pirâmides de cabeças humanas” e de que “cobriam colunas com as peles de seus rivais”. Foi sobre um povo assim que Naum foi ordenado a pronunciar a destruição inexorável.
IV - Nínive - A cidade ficava no lado oriental do Tigre, em frente à moderna povoação de Mosul. Foi fundada por Ninrode de Babilônia (Gênesis 10:11) e dedicada especialmente à deusa Istar. Era a capital dos reis da Assíria, de 1100 até 880 a.C., e em seguida, novamente, depois que Senaqueribe tornou-se rei, em 705 e seguintes a.C. Era considerada, de fato, como a cidade principal do império.
         Nínive era três vezes fortificada por muros e fossos, fortalezas e torres, tendo seus muros 12 Km de circunferência, sendo tão largos que sobre eles podiam trafegar 3 carros, lado a lado. Era essa Nínive a capital da raça de homens provavelmente mais sensuais, ferozes e diabolicamente atrozes que já existiram no mundo inteiro. Eram grandes sitiadores de homens, gritando continuamente: “sítio, sítio, sítio!” Contudo, Naum declara que esses mesmos sitiadores do mundo seriam no final sitiados (Naum 3:1 e seguintes). As ameaças de Naum foram cumpridas de maneira extraordinária. Esaradon foi o último rei de Nínive. Os medos com os babilônios e outros derrubaram em primeiro lugar todas as fortalezas existentes ao redor da cidade (Naum 3:12) e em seguida sitiaram a cidade. Os ninivitas proclamaram um jejum de cem dias, tentando apaziguar os seus deuses (Ver Jonas 3:15), mas apesar disso, a cidade caiu. Kitesias descreve como a cidade sitiada passou sua última noite em orgias e bebedeira, seguindo  o exemplo do rei efeminado (Naum 1:10; 2:5). Para precipitar a catástrofe, o Tigre transbordou, abrindo brechas nos muros, quando o rei, ao constatar a iminente ruína da cidade, queimou-se vivo dentro do palácio (Naum 3:15-19) e a cidade foi saqueada de todos o seu rico despojo,  em seguida (Naum 2:10-14). Nínive caiu em cerca de 611 a.C. Sua destruição foi completa. Na atualidade nada mais resta da antiga cidade, além das grandes montanhas chamadas Konyunjik e Nebi-Yunis. Tão completa foi em verdade a ruína de Nínive que apenas Xenofontes reconheceu o local da mesma. Alexandre, o Grande, por ali passou “sem saber que um império universal estava sepultado sob os seus pés”. Luciano escreveu: “Nínive pereceu e não ficou um rastro sequer de onde existira antes”. Gibbon narra que logo em 62 D.C., “a cidade e ainda suas ruínas já há muito haviam desaparecido”. O viajante Niehbur, em 1766, por ali passou sem saber. Somente depois que Layard e Botta identificaram o local, em 1842, é que a cidade começou a ser reconhecida pelo mundo moderno.
IV - Conteúdo - As profecias de Naum correspondem naturalmente a três grandes divisões: 1. - Capítulo 1 - Um canto de triunfo sobre a queda iminente de Nínive, um canto sublime. 2. - Capítulo 2 - O juízo que virá: “a guarda dos leões” da cidade será destruída; a defesa é impossível. 3. - a iniqüidade da cidade: sua crueldade e avareza, sua diplomacia desonrada, sura prostituição e sua traição. Por isso, diz o profeta, Nínive há de cair totalmente, sob os aplausos das nações, nada restando para a consolar. O poeta parece regozijar-se muito com essa destruição.
V - Forma poética - Conforme sua estrutura poética o livro pode ser dividido em oito versos de tamanho quase igual.
1. - Capítulo 1:2-6 - Uma descrição de Javé vingador, o qual não deixará impune o crime.
2. - Capítulo 1:7-12 - Para ser fiel ao seu povo, Javé precisa destruir Nínive.
3. -  Capítulo 1:13 a 2:2 - O livramento  prometido a Judá e o juízo prometido a Nínive.
4. - Capítulo 2:3-8 - Uma serie de brilhantes descrições da captura da cidade; fora, os inimigos brandindo gloriosamente suas armas, carros correndo pelas ruas, brilhando como relâmpagos. Contudo, ai, ai, ai, tarde demais! As portas foram abertas e seus guerreiros deram as costas, fugindo às pressas. A rainha foi feita cativa e suas donzelas se lamentavam, batendo no peito.
5. - Capítulos 2:9 a 3:1 - Os habitantes se enchem de grande terror: de “joelhos trêmulos”. A cidade sanguinária, antes cheia, agora é saqueada.
6. - Capítulo 3:2-7 - Novos carros correm contra a cidade condenada. Nada os atrapalha, exceto as montanhas de cadáveres que enchem as ruas da  cidade. A desavergonhada rameira está prostrada e desnuda.
7. - Capítulo 3:8-13 – Assim, No-amón se rendeu; assim também terá de fazê-lo Nínive. Não há como escapar.
8. - Capítulo 3:14-19 -  A resistência será em vão. Como a locusta devoradora, virão os inimigos de Nínive. De fato, seu rei já pereceu e o seu povo se encontra esparso como ovelhas sem pastor. Ao ver a sua queda, as nações se regozijam.
         Quanto à forma poética, o livro de Naum é um dos mais lindos de todo o Velho Testamento. Nenhum outro profeta, exceto Isaías, pode-se dizer que se iguala a Naum em arrojo, ardor e sublimidade. Suas descrições são sumamente vivas e impetuosas. Sua linguagem é forte e brilhante, seu ritmo tem o estrondo do trovão, saltando e brilhando como um relâmpago, quando ele descreve os homens a cavalo e os carros. Por consenso geral, Naum é considerado um dos mestres do estilo hebraico. Sua excelência suprema não é a emoção, mas o poder de descrição, o qual, pelo seu indômito vigor e cor resplandecente, pelo expressivo, pinturesco e dramático de sua fraseologia, jamais foi superado.
VII - Mensagem - O profeta realmente resume a sua mensagem em Naum 1:7-9. Ele é preeminentemente um profeta que tem uma só idéia - a destruição de Nínive. Convencido de que Javé, mesmo sendo tardio e irar-se, não deixará de se vingar dos seus adversários, Naum projeta a luz do governo moral de Deus sobre Nínive, entoando o canto fúnebre do opressor maior do mundo. É o castigo do Senhor, por tanto tempo adiado, mas que é seguro e será completo e final.
         Naum se diferencia notavelmente dos seus predecessores, bem como dos seus contemporâneos - Jeremias e Sofonias - os quais visavam primeiramente a reforma de Israel. Em vez disso, o estribilho ou refrão de sua mensagem é uma certa forma de ardente indignação, a qual quase se assemelha a animosidade e vingança, expressando os sentimentos reprimidos dos seus compatriotas, os quais têm sofrido perseguições durante gerações, sentimentos que agora crepitam como chamas de fogo sobre o inimigo nacional de Israel. É a humanidade ultrajada que desperta e pede vingança. Duas vezes se escuta o refrão que diz: “Eis que eu estou contra ti, diz o SENHOR dos Exércitos, e queimarei na fumaça os teus carros, e a espada devorará os teus leõezinhos, e arrancarei da terra a tua presa, e não se ouvirá mais a voz dos teus mensageiros”  (Naum 2:13 e 3:5).
VIII - O valor de sua mensagem para nós - Três importantes lições ensinadas implicitamente por Naum são de fato permanentes:
1. - A universalidade do governo divino.
2. - Seu caráter de retribuição.
3. - Sua subordinação ao plano da graça.
         Lições como essas jamais podem se tornar antiquadas. Supõe-se que Naum, em primeiro lugar, falava à sua própria geração. Contudo, ele expressou os seus pensamentos de modo a se adaptarem às necessidades e consolo dos homens em todas as eras. Ele mostra que a destruição de Nínive não é um ato de soberania caprichosa, mas uma justa retribuição de suas iniqüidades. Quando interpretamos de maneira escatológica o seu livro, como devemos fazer, este adquire um valor incomparavelmente mais alto em relação ao que agora lhe tem sido geralmente atribuído. Ele não é o produto de um mero ódio nacional, mas um hino, ao mesmo tempo poético e divino, do que inexoravelmente há de se realizar na história. Não é o orgulho de Israel  que tem de defender-se, nem a rendição do seu povo, que vem primeiro, mas a vindicação do seu Deus.  Em outras palavras, a  grande lição do livro é que Deus jamais deixa de castigar a iniqüidade nacional e pessoal. Ele age com as nações do mesmo modo como age com os indivíduos. Como e lê em Tiago 1:15: “Depois, havendo a concupiscência concebido, dá à luz o pecado; e o pecado, sendo consumado, gera a morte”. O gozo de Naum, repetimos, não é meramente a exultação de um patriota irritado  sobre o inimigo vencido, mas antes a expressão alegre de uma sólida fé no Deus de seus pais. Para ele a destruição de Nínive estava subordinada à misericórdia salvadora que Javé precisava mostrar ao seu povo e, por meio deste, ao mundo inteiro.
         Seu oráculo é essencialmente, embora não explicitamente, messiânico, conforme Apocalipse 19:10: “...porque o testemunho de Jesus é o espírito de profecia”. E de Atos 3:24: “Sim, e todos os profetas, desde Samuel, todos quantos depois falaram, também predisseram estes dias”. Quando assim interpretamos o oráculo do profeta, este se torna uma mensagem de consolo, conforme o significado do seu nome. Ele não apontou claramente para o Redentor. O que ele fez foi preparar o seu povo para um tempo em que havia a probabilidade deste ceder ao desespero. Naum viu que o reino das trevas teria de cair, antes que se apresentasse o reino da luz. A destruição de Nínive, portanto, deveria acontecer antes de ser inaugurado o reinado do Príncipe da Paz. Mensagem como esta tem valor para todos os tempos e para tudo que sobreviva ao espírito de Nínive [Sadam Hussein e Bin Laden,  por exemplo]. Mesmo que o livro não esteja em contraste com o caráter gracioso do Novo Testamento, nem seja citado por nenhum dos seus escritores, o Espírito Santo tem ensinado implicitamente que todo poder temporal deve cair, antes que venha o Reino de Deus.
IX - Passagens importantes - Certas passagens são especialmente preciosas e, a menos que as assinalemos e lhes demos ênfase, existe o perigo de que nos passem despercebidas, neste livro que talvez tenha sido pouco lido.
1. - Verso 1:3 – “O SENHOR é tardio em irar-se, mas grande em poder, e ao culpado não tem por inocente; o SENHOR tem o seu caminho na tormenta e na tempestade, e as nuvens são o pó dos seus pés”. Uma sugestão do provérbio italiano: “Deus não costuma remunerar o sábado”.
2. - Verso 1:7 - “O SENHOR é bom, ele serve de fortaleza no dia da angústia, e conhece os que confiam nele”.
3. - Verso 1:15 - “Eis sobre os montes os pés do que traz as boas novas, do que anuncia a paz! Celebra as tuas festas, ó Judá, cumpre os teus votos, porque o ímpio não tornará mais a passar por ti; ele é inteiramente exterminado”. Aqui se lê sobre o arauto da salvação temporal e espiritual. Talvez o original desta passagem seja a forma ampliada de Isaías 52:7: “Quão formosos são, sobre os montes, os pés do que anuncia as boas novas, que faz ouvir a paz, do que anuncia o bem, que faz ouvir a salvação, do que diz a Sião: O teu Deus reina!”
4. - Verso 2:10:  “Vazia, esgotada e devastada está; derrete-se o seu coração, e tremem os joelhos, e em todos os lombos há dor, e os rostos de todos eles enegrecem.”
         Como todos os profetas do Velho Testamento, Naum gosta de usar o jogo de palavras. Mofat procura reproduzir o Hebraico, traduzindo assim: “Esta devastada, desolada e infeliz, desmaiando-lhe o coração e tremendo-lhe os joelhos”.

The Tweve Minor Prophets”, George L. Robinson
Publicado por George H. Doran Co, New York, 1926
Traduzido por Mary Schultze, março/abril 2004
Citações bíblicas da Bíblia Revisada FIEL de Almeida

Miquéias, o profeta dos pobres

I - Nome – Miquéias, o número seis entre os Doze, teve um nome que por si mesmo era um credo, pois a forma mais ampla e provavelmente mais antiga - Mikayahu - significa “Quem é semelhante a Javé?” (Mq. 1:1; 7:18; Jr. 26:18). Como Miguel, que significa “Quem é como Deus?". Miquéias tem quase o mesmo significado.
         Nosso profeta não deve ser confundido com Micaías, que era detestado por Acabe (1 Reis 22:8).
II - Lugar - Ele é chamado “morastita” (1:1), visto ter nascido em Moreset-Gat (Mq. 1:14), local situado 32 Km. ao sudoeste de Jerusalém. Jerônimo colocou Moreset a leste de Eleutherópolis, a moderna Beit-gibrin.
         Como Amós, Miquéias era natural do campo. Em geral existe mais religião no lar do campo do que no da cidade. Aparentemente Miquéias não gostava da cidade (Mq. 1:5;5:11;6:9).
III - Personalidade - Miquéias deve ter tido uma personalidade muito forte. Era um homem valoroso e de fortes convicções. O segredo de sua força está revelado em Mq. 3:8: “Mas eu estou cheio do poder do Espírito do SENHOR, e de juízo e de força, para anunciar a Jacó a sua transgressão e a Israel o seu pecado”. Como um verdadeiro patriota e pregador fiel, ele denunciou vibrantemente o pecado e assinalou o local da vinda de Cristo. Ele foi, antes de tudo, um profeta dos pobres e um amigo dos oprimidos. Sua alma foi plena de simpatia leal pelos tiranizados. Sentia a mesma paixão de Amós pela justiça e tinha o mesmo coração amoroso de Oséias. Miquéias era um Amós redivivo. Sua grande sinceridade contrasta notavelmente com os lisonjeiros ensinos de seus contemporâneos, os quais, como falsos profetas, idealizavam  as mensagens conforme os seus soldos (Mq. 3:5).
IV - Seu tempo - Conforme o título do seu livro, Miquéias profetizou “nos dias de Jotão, Acaz e Ezequias, reis de Judá” (Mq. 1:1). Esta é uma data amplamente confirmada por evidência interna e também por Jeremias 26:18, o qual cita Miquéias 3:12. Foi, portanto, um contemporâneo de Isaías. Ele deve ter pregado tanto antes como depois da queda de Samaria (722 a. C) e muito provavelmente desde cerca de 735 até 715 a.C. Mackay opina ter ele pregado por mais de 40 anos.
         Sob o reinado de Jotão, o luxo era esplêndido. Sua ambição de construir fortalezas e palácios em Jerusalém custou a vida de muitos camponeses. Sob o reinado de Acaz, Judá foi obrigada a pagar tributos à Assíria, tributos que juntamente com o custo da guerra sírio-efraimita, em 734 a.C., caíram como uma pesada carga sobre todas as classes. Tanto os ricos como os pobres sofreram. Os arrendatários egoístas e avarentos usavam o seu poder para oprimir, confiscando os bens dos pobres e até mesmo expulsando as viúvas de suas casas. Todo tipo de crimes era perpetrado, com os ricos devorando as classes humildes, “como  ovelhas comendo a erva”. Sob Ezequias, que procurou reformar o estado, as condições se tornaram ainda mais desesperadoras. Os homens deixaram de confiar uns nos outros, enchendo Jerusalém de facções e intrigas. Os conselheiros do rei se dividiram na política, alguns advogando uma aliança com o Egito contra a Assíria e outros advogando uma submissão à Assíria.  Os encarregados da lei abusavam de seus poderes. Os nobres roubavam os pobres. Os juízes aceitavam suborno. Os profetas adulavam os ricos e os sacerdotes ensinavam em troca de remuneração (Cap. 2). A cobiça das riquezas imperava de todos os lados. Os tiranos opulentos se enganavam quanto a um possível juízo.  A comercialização e o  materialismo quase suplantaram o último vestígio do ético e do espiritual. Em semelhante crise apareceu Miquéias, procurando conduzir a nação de volta a Deus e aos seus deveres.
         Sellin acredita que Mq. 3:11,12 seriam mais inteligíveis depois da centralização do culto empreendida por Ezequias.
V - Mensagem -  A mensagem de Miquéias suplementou a de Isaías. Isaías era um cortesão, Miquéias um rústico. Isaías era um estadista, Miquéias um evangelista e sociólogo. Isaías tratou das questões políticas, Miquéias quase exclusivamente da religião pessoal e da moralidade social. Ele era mais democrático do que Isaías. Suas relações pessoais não eram com o rei, mas com o povo. Era um profeta do povo. Isaías ensinou a inviolabilidade de Sião, Miquéias predisse a sua destruição (Mq. 3:12). A nobreza tinha um conceito equivocado de Deus, imaginando que, por serem pessoas respeitáveis, o castigo era impossível. E como argumento indagavam: “Não está o Senhor no meio de nós?”  Completando: “Nenhum mal nos sobrevirá” (Mq. 3:11).
         Miquéias possuía idéias avançadas sobre o reino de Deus e elevou muito alto o modelo da religião e da ética, conforme Mq. 6:8: “Ele te declarou, ó homem, o que é bom; e que é o que o SENHOR pede de ti, senão que pratiques a justiça, e ames a benignidade, e andes humildemente com o teu Deus?” Toda a sua mensagem poderia ser expressa nesta declaração: “os que vivem de modo egoísta e luxuoso, mesmo que ofereçam sacrifícios dispendiosos, aos olhos de Deus são vampiros que sugam o sangue vital dos pobres”. Suas palavras também emocionam.
VI - Análise - Apesar da fórmula “OUVI”, repetida três vezes (Mq. 1:2; 3:1 e 6:1-2), a qual introduz as três principais seções do livro, a melhor divisão do material, conforme o caráter dos assuntos, é como segue: Caps. 1-3 - Juízo; Caps. 4-5 - Consolo; Caps. 6-7 - O caminho da salvação. Esta serve de rascunho até mesmo para um sermão moderno.
Caps. 1-3 – Denúncia severa e completa condenação. Estão cheios de invectivas apaixonadas contra os oficiais da igreja e do estado, acompanhadas de trovões de juízo, admoestação e ameaça, até que as censuras do profeta se tornam desagradáveis e os que as escutam ordenam que se cale (Mq. 2:6). Miquéias foi o primeiro entre os profetas a ameaçar Jerusalém com a destruição (Mq. 3:12). Contudo, a sorte do restante da nação foi clara e distintamente resguardada da sorte da capital. Suas ameaças, felizmente, foram seguidas de promessas de restauração.
Caps. 4-5 - Vislumbres da glória vindoura, com promessa se salvação, incluindo esperanças messiânicas e  escatológicas [Restauração que somente acontecerá no Reinado Milenar de Cristo, o Messias de Israel]. Miquéias olha para trás do mesmo modo como contempla o futuro. Como sempre acontece no Velho Testamento, sua visão do futuro está alicerçada nos feitos do presente. No livramento vindouro de Judá (como de Senaqueribe, 701 a.C.), Miquéias vê o futuro triunfo da justiça. Dois quadros se apresentam em sua mente - a exaltação de Sião e o nascimento do Messias, em Belém.
a)      Mq.4:1-5 - fazem uma descrição de Sião destinada, conforme ele vê, a se tornar a metrópole espiritual do mundo inteiro (sob a soberania do Deus de Israel), com as nações aceitando a lei do Senhor como o seu árbitro, um tempo de paz universal. Israel será supremo no que toca à religião. A idade áurea, por tanto tempo ansiada, tornar-se-á uma realidade.
b)      Mq.5:2 e seguintes - profetizam que o Messias haveria de nascer em Belém, como Davi. Isaías 7:14 havia predito: “...Eis que a virgem conceberá, e dará à luz um filho, e chamará o seu nome Emanuel”. Miquéias prediz o seu nascimento numa vila. Setecentos anos depois, no reinado de Herodes, o Grande, os magos que procuravam o local, com a ajuda dos rabinos judeus, obtiveram desta passagem a direção para prosseguir sua viagem (Mateus 2:1-6).
Caps. 6-7 - A controvérsia de Javé, diálogo sumamente dramático, que vindica a providência de Javé. O povo enxerga Deus como um Senhor austero, avarento e exigente,  o qual procura submetê-lo a requisitos injustos. Eles querem saber quando Deus ficará satisfeito. Por meio de métodos cruéis e equivocados, os judeus tentam apaziguar a ira divina, oferecendo os frutos do seu ventre pelos pecados de suas almas (Mq.6:7). Javé lhes responde na que é considerada uma das maiores passagens do Velho Testamento: “Ele te declarou, ó homem, o que é bom; e que é o que o SENHOR pede de ti, senão que pratiques a justiça, e ames a benignidade, e andes humildemente com o teu Deus” (Mq. 6:8).  Huxley chama esta passagem de “o perfeito ideal da religião”, pois ela engloba todo o dever do homem: o verdadeiro culto é o verdadeiro ritual e a verdadeira moralidade. Logo o profeta prossegue fazendo, com grande ênfase, uma das mais acerbas críticas a uma comunidade comercial que se encontra em toda a literatura, denunciando: “a medida escassa” (Mq. 6:10) e os pecados sociais da nação, os quais estão empurrando todo o povo, irremediavelmente, para a destruição (Mq. 6:15-16). Nesta seção, todas as classes, e não somente os líderes, como nos caps. 1-3, e todo o povo comum é denunciado como sendo mau. Não existe homem bom (Comparar com Romanos 3:10-18). “O melhor deles é como um espinho...” (Mq. 7:4). O profeta termina com uma lindíssima oração, como uma nobre apóstrofe a Javé, o incomparável Deus do perdão e da graça (Mq. 7:7-20).
VII - Os três grandes textos de Miquéias
1. Mq. 3:12: “Portanto, por causa de vós, Sião será lavrada como um campo, e Jerusalém se tornará em montões de pedras, e o monte desta casa como os altos de um bosque”. Este texto é a chave e o clímax da mensagem do profeta, famoso por ter sido lembrado depois de um século, o que possibilitou a salvação da vida de Jeremias: “Então disseram os príncipes, e todo o povo aos sacerdotes e aos profetas: Este homem não é réu de morte, porque em nome do SENHOR, nosso Deus, nos falou” (Jr. 26:18). Muito raramente um profeta do Velho Testamento cita outro. Evidentemente, a reforma de Ezequias pode ter sido animada, até certo ponto, por Miquéias (Comparar com 2 Reis 18:4).
2. Mq. 5:2 : “E tu, Belém Efrata, posto que pequena entre os milhares de Judá, de ti me sairá o que governará em Israel, e cujas saídas são desde os tempos antigos, desde os dias da eternidade”. Miquéias foi o primeiro entre os profetas a fixar os olhos em Belém, como sendo o local do nascimento do futuro Libertador. Ele seria um servo. Não iria nascer ali na capital, ignorando todas as necessidades rurais, irmão dos patrícios. Seria um homem de origem humilde, participante das cargas dos pobres - de fato, um Libertador dos pobres. Miquéias, o profeta dos pobres, previu um Messias dos pobres.
3. Mq. 6:8 : “Ele te declarou, ó homem, o que é bom; e que é o que o SENHOR pede de ti, senão que pratiques a justiça, e ames a benignidade, e andes humildemente com o teu Deus? “ Este verso é o lema escrito noDepartamento de Religião, no salão de leitura do Congresso de Washington. Contém os três maiores requisitos da verdadeira religião, isto é, fazer justiça, usar de misericórdia e andar humildemente. Ele resume nestas três fases todo o ensino da religião hebraica. A simplificação da religião sempre foi  a vocação do profeta. Davi reduziu - como sugere o Talmude - os 613 mandamentos do Pentateuco ao que está no Salmo 15. Miquéias os reduziu a três. E Jesus os reduziu a dois: “Amarás o Senhor teu Deus de todo o teu coração, e de toda a tua alma, e de todo o teu pensamento... Amarás o teu próximo como a ti mesmo” (Mateus 22:37,39). Comparem estas passagens com Tiago 1:27.
a) Fazer justiça - a justiça na Bíblia é reconhecida como a moral elementar. Ela é a base de todo o caráter moral, a qualidade essencial de um homem bom. É um dos atributos de Deus. Ela significa dar aos semelhantes tudo quanto estes têm o direito de esperar. Não estamos falando da justiça de Shylock [personagem de Shakespeare], o qual insistiu teimosamente em tirar a sua libra de carne. Nem da de Rob Roy, que sustentava: “Tomem os que têm poder e guardem os que puderem”.  A mera justiça não basta. De preferência a justiça ideal do profeta é a eternaRegra de Ouro citada por Jesus em Mateus 7:12: “Portanto, tudo o que vós quereis que os homens vos façam, fazei-lhos também vós, porque esta é a lei e os profetas”.
b) Amar a bondade (hesed), a compaixão e a misericórdia - Esta é a palavra favorita de Oséias e expressa uma qualidade mais elevada que a mera justiça. Muitos cumprem esta deixando de cumprir aquela. A misericórdia inclui a bondade. Às vezes a justiça denota uma dúvida, enquanto a bondade sempre denota graça e favor. É a bondade que, realmente, garante a prática da justiça.  Quando alguém não ama um princípio ele faz o possível para evitar a sua aplicação. A verdade é que a pessoa que faz o bem sem amar não é uma boa pessoa. Ela até finge que é boa, mas deixaria de fazer o bem, se isso lhe fosse possível. Deus deseja menos dos outros do que de nós mesmos.
         “A qualidade da misericórdia não é forçada;
ela cai como a chuva suave do céu,
sobre o lugar que está abaixo.
É duas vezes abençoada,
pois abençoa a quem dá
E abençoa a quem recebe” [Comparar com o amor da 1 Coríntios 13].
c) Andar humildemente - Este terceiro requisito é uma conseqüência dos dois anteriores. Não se pode obedecer aos dois primeiro sem obedecer ao terceiro (Amós 3:3: “Porventura andarão dois juntos, se não estiverem de acordo?”) [Pode alguém andar com Deus sem seguir a Sua Palavra Santa?] Enoque e Noé “andaram com Deus” (Gênesis 5:24 e 6:9). Um homem não pode andar com o deus do panteísmo. Andar humildemente significa render-se à pessoa, “inclinando-se para baixo”, como o fazem as crianças. A humildade é o maior adorno da religião.
         Estes três requisitos: a justiça, a misericórdia e a humildade -  a honestidade, a magnanimidade e um coração manso -  são, conforme Miquéias, as três coisas essenciais de uma vida religiosa. O Cristianismo não as modifica perceptivelmente e dá-lhes uma aplicação mais ampla e profunda. Só que Miquéias deixa, conforme Maclaren, de nos falar do poder de Deus, a fim de podermos cumprir esses requisitos. Somente na cruz poderemos encontrar o caminho.
VIII - Lições permanentes - A influência de Miquéias foi sentida, como já vimos, cem anos depois, no reinado de Joaquim (Jeremias 26:18) e até hoje não se tem imposto silêncio a essa voz. Entre as muitas lições ensinadas pela profecia estão as seguintes:
1. Voltar a Belém - É uma contra-senha notável. Para o profeta e seus contemporâneos significa voltar a Davi, que venceu os inimigos da nação e assegurou paz na mesma. A Davi, que estabeleceu uma capital nacional e organizou um governo central. A Davi, que executou o juízo e a justiça na terra. A Davi, de quem Jeremias predisse que Javé levantaria “um Renovo justo” (Jeremias 23:5 e 33:15). A Davi, ideal constante de teocracia. A Davi, sobre cujo descendente profetizou Isaías 16:5:  “Porque o trono se firmará em benignidade, e sobre ele no tabernáculo de Davi se assentará em verdade um que julgue, e busque o juízo, e se apresse a fazer justiça”. Finalmente o Messias da futura Idade de Ouro de Israel seria um homem como Davi.
         Para nós essa mensagem significa muito mais. Significa voltar-nos para Jesus Cristo, o Filho de Davi, o qual também nasceu em Belém. A Jesus Cristo, o segundo e maior Davi, o Príncipe da Casa de Davi. A Jesus Cristo, o Salvador da humanidade, tanto dos pobres como dos ricos. A Jesus Cristo, que era um trabalhador e um servo, nascido num estábulo, filho de uma camponesa, ele mesmo um carpinteiro. A Jesus Cristo, que em suas parábolas tinha prazer em falar dos campos e dos rebanhos; dos semeadores e dos ceifeiros; de ovelhas e de bois. A Jesus Cristo, que lavou os pés dos discípulos e carregou a sua própria cruz. A Jesus Cristo, o amigo dos pecadores humildes, e que aos pobres pregou o evangelho, que as pessoas comuns se deleitavam em ouvir. Tenhamoscuidado de não separar Jesus Cristo das pessoas comuns!
2. Voltar à justiça ética: “Ele te declarou, ó homem, o que é bom; e que é o que o SENHOR pede de ti, senão que pratiques a justiça, e ames a benignidade, e andes humildemente com o teu Deus?” A justiça no Velho Testamento era e sempre há de ser uma das três virtudes cardeais da religião permanente. Assim como a natureza humana tem uma pequena parcela de constância, também os requisitos essenciais da religião são sempre, fundamentalmente, os mesmos. De uma vez para sempre Miquéias considerou o sacrifício, até mesmo o holocausto do primogênito, como de menor importância, quando comparado à justiça ética. Como Oséias, ele ensinou que a religião e a ética são inseparáveis (Oséias 6:6). Também o seu conceito de Israel, isso é, da nação, era o de uma personalidade gigantesca, a qual pecava como um e deveria arrepender-se como um. Miquéias simpatizava inteiramente com as classes pobres. Considerava Javé como o Vingador dos oprimidos mudos de Israel. Observou os rostos angustiados dos proletários desamparados e pronunciou invectivas mais fortes contra a aristocracia, que continuava somando bens aos seus bens: “E cobiçam campos, e roubam-nos, cobiçam casas, e arrebatam-nas; assim fazem violência a um homem e à sua casa, a uma pessoa e à sua herança” (Mq. 2:2).  Ele se recusou a reconhecer as pretensões dos que desejavam ser olhados como a nobreza. Ele sabia que a terra de Israel pertencia a Javé (uma coisa que a ONU e os governantes mundiais da atualidade ainda não aprenderam] e que o Ano do Jubileu era necessário, a fim de que todos pudessem recomeçar. Desse modo, ao pregar a justiça ética, Miquéias antecipou o sociólogo moderno, dando a única solução possível para o descontentamento social. Os  patrícios do seu tempo eram egoístas e os plebeus eram suas vítimas. Cuidemos para que o egoísmo não se apodere de nós.
3. Voltar ao Príncipe da Paz : “E julgará entre muitos povos, e castigará nações poderosas e longínquas, e converterão as suas espadas em pás, e as suas lanças em foices; uma nação não levantará a espada contra outra nação, nem aprenderão mais a guerra” (Miquéias 4:3. Também Mq. 5:5). Ele foi o primeiro a prever a utopia pacífica na qual Sião um dia iria se transformar, conforme Mq. 4:1-5 (Comparar com Isaías 2:2-4), tendo dado ênfase ao sublime ideal da profecia que prevalecia no século 8 a.C., da verdadeira essência da sociologia em todos os tempos, na qual a paz e a prosperidade são garantidas. A paz universal, à base da lei e da justiça, sempre foi o ideal social do Velho Testamento. Sobre a base do evangelho ela vem a ser a expressão do amor fraternal. Não deixemos de guardar este ponto!
IX - Estilo - Vivência e ênfase, relâmpagos de indignação pelos males sociais, rápidas transmissões de ameaça, de misericórdia, emoção veemente e simpática ternura. A força, a cadência e o ritmo retóricos, muitas vezes elevados e sublimes. São estas algumas das características mais notáveis do estilo literário do profeta. Ele escreveu em excelente Hebraico. Tanto os seus pensamentos como a sua linguagem justificam sua pretensão de falar com o poder e a inspiração de Javé: “Mas eu estou cheio do poder do Espírito do SENHOR, e de juízo e de força, para anunciar a Jacó a sua transgressão e a Israel o seu pecado” (Mq. 3:8). Nos versos 1:10-16, Miquéias se vale de uma série de jogos de palavras, alguns dos quais Mofat procura expressar em sua tradução:
Verta lágrimas na cidade das lágrimas (Bochim).
Revolta de poeira na cidade da poeira (Bet-afra).
Passa, desnuda e com vergonha, a cidade formosa (Safir).
Não ousam sair os homens da cidade da saída (Zaanã).
Bet-ezel...
E Morot (amargura) espera em vão,
visto como o mal desceu do Eterno à própria Jerusalém.
Ata aos carros teus velozes corcéis e corre,
ó cidade dos cavalos (Laquis).
Ó fonte do pecado de Sião,
onde se encontram as transgressões de Israel!
Ó filha de Sião, tens que desapossar-te
de Moreset-gat (a possessão de Gat)
E os reis de Israel estão sempre enganados,
na cidade do engano (Aczibe).
Ainda que devores quem te possui,
ó moradora de Maresa (possessão);
até Adulão (justiça do povo)  venderá a glória de Israel.
Faze-te calva, raspa a cabeça
por causa dos filhos dos teus deleites.
Alarga a tua calva como um abutre,
porque todos terão ido em cativeiro!
The Tweve Minor Prophets”, George L. Robinson
Publicado por George H. Doran Co, New York, 1926
Traduzido por Mary Schultze, março/abril 2004
Citações bíblicas da Bíblia Revisada FIEL de Almeida